Chuva
Como
a chuva que se derrama pela cidade
e nunca retornará novamente como a mesma
chuva,
assim sou eu, que me derramo pelos dias,
construindo meu
passado,
vendo o agora ser notícia de ontem
logo quando me distraio a
pensar demais
no que vem depois.
Como a chuva que se derrama pelas
calçadas,
também sou movimento que um dia cessará,
mas enquanto isso
transbordo até o limite,
sou excessivo,
busco vida em cada fresta que se
abre,
em cada corpo que se faz de concreto
e dureza aparente ,sou oblíquo
como estas gotas que caem surrando minha janela,
minha retidão é apenas
aparente,
mas sigo sempre direções contrárias àquelas
que esperam de
mim.
Eu dou a direção das minhas águas,
eu escolho onde desembocar.
Não
tente me aprisionar no limite das suas mãos em concha,
conceba-me como este
rio vertical que só quer correr livre.
Então beba de mim,
sacie-se,
carregue no seu sangue um pouco de minhas águas,
mas não queira
ser as margens que limitam os meus braços.
Pois sou esta chuva oblíqua, que
molha e acarinha sua carne,
que se faz beber pela sua língua fibrosa,
mas
que nem sempre cai vertical,
da mesma forma, na mesma direção.
Sou a chuva
que descarta qualquer retidão,
que cai livre e que nunca mais será a
chuva
que você vê agora.
Serei sempre uma queda diferente.
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